quinta-feira, 24 de março de 2016


O BOMBARDEIRO T.6 VOANDO SOBRE AS MATAS DO LUNHO:

1 comentário:

  1. Ei Henriques…. vem cá !
    Uma mão estendida acenava por entre as grades da prisão.
    Queres comer galinha ?
    Dos nomes não estou certo mas talvez o Sabonete ou o Vinte e Oito.
    Estavam lá dois companheiros africanos dos meses “amargos” no Lunho e que dias antes tinham com o “vapor” das cervejas e da “água do puto” resolvido pegar nas G3 e dar uns tiros para o ar , misturando-os com uns vivas á Frelimo.
    Lá os vivas….tudo bem. Podiam dar… porque em Junho de 74 tal era permitido.
    Já não havia “turras”.
    Mas tiros era pouco avisado, mesmo para quem sabia do oficio.
    Vai dai o comandante resolveu refrescar a euforia premiando-os com uns dias á “sombra” Ficaram pesarosas as esposas que de recente casamento se viram privadas por dias.
    Vinham algumas com frequência trazer comida a estes e outros Africanos que mal chegaram do Lunho logo trataram de casar. A medo com aquele olhar fugidio vinham as esposas ao “arame” e depois á Porta d’armas. Na mão pequenos tachos embrulhados em panos atados pelas quatro pontas.
    Fiquei especado mas foi rápida a decisão. Aceitei a oferta e ao “cabo-de-dia” pedi que me abrisse a porta do cárcere.
    No chão o pano imaculado foi estendido e sobre este pousaram o tacho e uma tigela com a farinha amassada. Tudo ainda fumegante.
    Não havia talheres. Apenas aqueles que a natureza nos deu na extremidade dos braços.
    Ainda hoje me lembro do sabor daquele manjar.
    Com mestria faziam pequenas bolas de farinha que molhavam levemente no tacho com os pedaços de galinha. Rapidamente os imitei.
    Comemos lentamente e bebemos umas “bazucas” enquanto o tempo “voava”.
    Daquele manjar ainda hoje me recordo e duvido que mistura idêntica tenha tido melhor sabor de então para cá.
    Foi em Malena em meados de setenta e quatro. Dois negros detidos e um branco “livre” vestidos com a farda do mesmo exército comeram e confraternizaram em fim de ciclo dos encontros e desencontros com quinhentos anos.

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